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Amanhecer na estação de Khajuraho.

Definir um roteiro pela Índia é uma tarefa épica, o país é gigante e as atrações estão espalhadas por todo o território. Daqueles países que você precisa de uma encarnação para explorar. Para dificultar, a estrutura do país é bem precária, estradas ruins, trânsito louco, engarrafamentos causados por vacas. Mas, a Índia tem uma vantagem, uma excelente malha ferroviária, de aproximadamente 65.000 quilômetros, herança britânica, que corta todo o país de norte a sul e de leste a oeste, e leva a quase todos os pontos que você pode querer conhecer em uma viagem. Viajar de trem pela Índia faz parte da experiência!

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Fonte: www.prokerala.com

Ótima opção, né? Pode ser sim, ou não. Eu tenho certeza que você já ouviu alguma história cabeluda sobre os trens na Índia, de assalto, estupro ou de super lotação. Não faltam histórias a respeito e, depois de estar lá, eu tendo a achar todas elas factíveis. Antes de viajar, eu li o excelente manual dos meninos do 360 Meridianos, que dizia que viajar de trem na Índia pode ser a melhor e a pior ideia que você pode ter na vida. Estão certíssimos!

No total eu fiz 7 viagens de trem, com variação entre 3 e 17 horas de duração, muitas das teorias eu pude testar na prática, outras eu aprendi in loco, e vou relatar aqui para ajudar quem está planejando uma viagem. Um único trecho eu fiz de ônibus, e foi um pesadelo! Depois do avião, o trem é definitivamente a melhor escolha e uma coisa eu garanto, trens na Índia são muito mais que um meio de transporte, são uma experiência antropológica!

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O primeiro trem a gente nunca esquece.

As classes.

Essa era a minha grande dúvida inicial, os trens dividem-se em sete classes, porém as classes não estão presentes em todas as linhas. A divisão é a seguinte:

AC – Classes com ar condicionado

[AC1] – First AC

É a classe mais cara, o filé mignon dos trens. São compartimentos fechados com 4 camas, duas inferiores e duas superiores, algumas com lavatório. É bem difícil comprar um bilhete, são poucos lugares disponíveis.

Desvantagem: Se você estiver viajando sozinha, estará fechada num compartimento com os seus vizinhos, que podem ser 3 homens indianos. Eu não recomendo.

[AC2] – Second AC

Tem a mesma configuração da AC1, porém as cabines não são fechadas por uma porta, e custa a metade do preço da AC1.

[AC3] – Third AC

Foi a minha escolha em praticamente todas as viagens, a diferença para os vizinhos mais caros é a existência de um beliche intermediário, são 6 por compartimento, 3 de cada lado e 2 na lateral do corredor.  Entre as categorias AC, é a que possui maior quantidade de vagões, portanto mais fácil ter disponibilidade. É também a mais recomendada nos guias de viagens para turistas.

[ACEC] – Executive chair AC

Em viagens curtas e geralmente diurnas os trens tem vagões com cadeiras, em 2 categorias. A executiva tem fileiras com 2 cadeiras bem confortáveis.

[AC CC] – Chair car AC

A diferença para a classe executiva é a quantidade de cadeiras, nessa classe são 5 por fileira.

Classes sem ar condicionado.

[SL] – Sleeper class.

Tem a mesma configuração da AC3, porém sem ar condicionado. É a classe que os indianos escolhem para trechos de longa distância, em função do preço, é bem mais barata que as classes com ar condicionado. Seria uma opção de escolha caso existisse um controle de pessoas a bordo.

[2S] – General Seating.

É o purgatório, a visão mais assustadora que já tive na vida. A classe mais popular e barata, são vagões com bancos e capacidade ilimitada de pessoas, já que aquela lei da física que diz que dois corpos não ocupam o mesmo lugar num espaço, não foi aplicada aqui. Os vagões são sempre ultra lotados e sujos, muito sujos. Não entre nem sendo convidado.

Existe ainda um trem chamado Palace on Wheels, eu achei que fosse lenda urbana mas vi o trem na estação de Agra. Ele é vendido como uma experiência de alto luxo, do tipo tenha um mordomo ao seu dispor. Para orçamentos em que o céu é o limite.

A grande diferença entre as classes com ar condicionado e sem é o controle existente. Todas tem assentos ou beliches numerados, e você escolhe no ato da compra. Porém, nas classes baratas o controle não existe, e metade das pessoas viajando naquele trem não pagaram pelo bilhete. Não pagaram, não tem assento, adivinha onde elas vão sentar? No seu. E como os vagões são super lotados, os casos de assalto e assédio são mais frequentes.

Uma boa escolha? As classes AC2 e AC3. Os seus companheiros de cabine serão famílias indianas e outros turistas. A AC1 é uma boa escolha caso você esteja viajando em um grupo de 4 pessoas e conseguir fechar uma cabine pra vocês.

Dicas extras de sobrevivência:

– Prefira as beliches superiores, para ter um pouco, o que é possível dentro de um trem, de privacidade. Nas viagens mais longas é normal que as pessoas sentem para comer, ler e interagir, e não importa se a beliche de baixo for a sua e você quiser dormir, eles vão sentar ali. Sem cerimônia.

– Mesmo nas classes mais caras, cuide dos seus pertences, mantenha as malas com cadeados, leve sua bolsa quando for ao banheiro. A ocasião faz o ladrão.

– Tenha sempre, água mineral, papel higiênico e álcool em gel. Os banheiros são usáveis, mas ao longo da viagem vai ficando impraticável. Um lanche ou refeição para as viagens longas também é importante. Nas paradas sempre entram vendedores oferecendo comida, mas é comida indiana…

E uma dica que serve não apenas para as viagens de trem, mas para a Índia em geral, viaje com o coração aberto, relaxe e aproveite a viagem. Você vai conviver com atrasos, sujeira, ser importunado o tempo todo, presenciar situações desagradáveis, mas isso faz parte do pacote Índia. Viajar de trem possibilita acompanhar um pouco do cotidiano dos indianos nos vilarejos, e isso significa também presenciar a ida deles ao matinho ao longo da linha férrea, que eles usam como banheiro, todas as manhãs. Orgânico. Passado o choque inicial, você acaba acostumando.

 

Karina Ferraz

Karina Ferraz

Nasci no Rio de Janeiro, quis ser aeromoça, mas escolhi a arquitetura, paixão que me fez querer ver o mundo. Mundo esse que me levou até a Turquia, que resolvi chamar de casa e onde vivo há 3 anos. A arquitetura entrou de férias, surgiu a agente de viagens, que vive de organizar viagens para os outros e principalmente, para si mesma. Afinal, morar no centro do mundo faz tudo parecer mais perto.
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De trem pela Índia

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