Atravessando a fronteira entre o Nepal e a Índia.

Num post anterior eu fiz um resumão das minhas impressões de viajar pela Índia.

Dando continuidade, pretendo falar mais detalhadamente dos locais que visitei, para ajudar quem está planejando uma viagem. Mas, antes preciso contar como eu cheguei no país, e como isso influenciou a minha viagem. Sabe aquele ditado que diz que a primeira impressão é a que fica? Se você confia plenamente nele, não faça a mesma coisa.

O início da saga.

Antes de ir para a Índia, eu estava no Nepal, país vizinho, onde eu apliquei o visto no consulado de Kathmandu. A Índia hoje tem um processo de visto online para brasileiros, porém com alguns requisitos chatos, limite de viagem de 30 dias, válido apenas para entrada em alguns aeroportos, aqui tem um post bem completo. Dependendo dos seus planos ele não se encaixa. No consulado, o processo foi bem prático e rápido e, com visto em mãos, era hora de definir a próxima etapa da viagem. Estavamos em Kathmandu e a ideia era começar a jornada pela Índia em Varanasi. Olhando o mapa, as cidades são relativamente próximas, parecia ser mesmo a decisão mais coerente.  De avião, quase não existem vôos diretos, a grande maioria é via Delhi, e eu não queria começar a viagem por lá de jeito nenhum, porque inconscientemente eu já sabia que iria odiar aquele lugar. Juntando as possibilidades, tomamos a decisão de cruzar a fronteira por terra, parecia, rápido, fácil e indolor.

Se eu tenho a chance de te dar um único conselho nessa vida, escolho esse: Não faça isso!”

Fronteira Nepal Índia
O ônibus do Nepal

Pesquisando em fóruns de viagens, era uma opção possível e muito usada por viajantes, já que a dobradinha Nepal/Índia é bem comum, mas todos eram unânimes em dizer que a fronteira é o lugar mais feio do mundo, e cheio de espertinhos aplicando golpes. “Atravesse de dia”, “Não fique vagando, faça os trâmites de entrada e siga.” Essas eram as orientações.

Existem 3 fronteiras abertas entre os países, Birganj, a maior delas e mais usada por caminhões, Kakarbhitta, que fica no oeste e a melhor opção para quem visita a área de Darjeeling, e Sunauli, a mais conhecida entre os viajantes e a que escolhemos. A decisão de ir por Sunauli também foi influenciada pelo bloqueio de combustível que a Índia estava impondo ao Nepal na época, e as informações locais é que a fronteira em Birganj estava tensa. Fronteira definida, era hora de achar um transporte até lá, o que foi fácil, já que  existem vários ônibus. Sunauli fica bem próximo a Lumbini, conjugar uma noite lá é uma boa opção, mas devido ao tempo de visto que tinhamos no Nepal, não foi possível. De Sunauli seria só caminhar até o lado indiano e pegar outro ônibus até a primeira cidade, Gorakhpur e enfim, um trem para Varanasi. Parece simples mas cheira a perrengue!

Eu já tinha viajado de ônibus pelo Nepal, mas em rotas turísticas e nos ônibus que eles consideram VİP, estão longe de ser mas, depois de conhecer o sistema local, eu tive que concordar com essa categorização. O ônibus até a fronteira, uma viagem de 7 horas, levava muito mais passageiros do que ele tinha capacidade de transportar, e como ele fazia várias paradas ao longo do caminho, a rotatividade era constante. Num dado momento, tinha um casal com uma galinha, viva e piando, do meu lado. Mas o ponto alto da viagem mesmo foi quando o motô anunciou a parada para banheiro. O ônibus parou no meio da estrada e as pessoas saíram em direção ao mato, homens para um lado e mulheres para o outro, em busca de uma moitinha para chamar de sua. Orgânico e desinibido. E, o ônibus que foi informado ser até a fronteira, obviamente parava numa cidade antes, duvide de qualquer afirmação referente a serviços no Nepal. E quando você reclama, eles balançam a cabeça sorrindo. A solução foi pegar um outro transporte, um híbrido de kombi e van coberto de poeira, até lá.

Aperte o play e viaje por um bumba nepalense.

A fronteira.

Os trâmites da fronteira foram rápidos e simples, apesar da quantidade de gente atravessando. Verifica visto, carimba, boa viagem, próximo. No posto indiano, o guarda, super simpático, informou que poderíamos trocar dinheiro de forma segura do outro lado da rua “Vocês vão precisar”.  Parece simples, né? Mas atravessar a rua foi uma missão impossível, visualize um  engarrafamento onde estão parados ônibus, carros, tuk tuk, bicicletas e pessoas, muitas pessoas. “Welcome to Índia”, ouvi de um motorista parado mascando tabaco. Pula uma bicicleta, atravessa, troca dinheiro e segue até o tão falado ônibus para Gorakhpur, que por  sorte sairia em poucos minutos, para uma viagem relativamente curta, 90 quilômetros.

Primeira lição em solo indiano, o tempo de viagem nunca é calculado em função da distância, isso é um fator etéreo. Segunda lição, indianos dirigem com a mão na buzina. Foram 90 quilômetros, percorridos em quase 3 horas, ao som de uma buzina contínua. E pelo menos metade da viagem foi pelo acostamento da rodovia, o que de alguma forma explica a buzina, pensei. Mas depois aprendi que não, eles buzinam mesmo, tendo motivo ou não.

Acabou? Não!

A viagem era até Varanasi, lembra? Ainda faltava um trem, saindo de Gorakhpur. E a coisa da fronteira ser o lugar mais feio do mundo? Quem disse isso não pisou nessa cidade. Feia, suja, caótica, quente. Felizmente, a estação de trem era em frente a parada do ônibus, a experiência na cidade foi bem curta, mas o suficiente para uma péssima impressão. Na entrada da estação, uma vaca. Uau, estou na Índia mesmo! Pausa para fotografar a vaca. A felicidade durou pouco, atrás da vaca tinha um rato, com o tamanho aproximado de uma capivara. Sim, eu estava na Índia mesmo! Primeira vaca de milhares, primeiro rato de muitos, primeira estação de trem, cheiro de curry no ar e um mundo novo se abrindo. Uma palavra para definir aquela estação? Sujeira. E famílias inteiras dormindo no chão, tanto dentro quanto fora da estação. Anticorpos, a única explicação para a sobrevivência daquelas pessoas.

Fronteira Nepal Índia
A primeira vaca a gente nunca esquece!

Valeu a pena chegar na Índia assim?

Foi provavelmente a viagem mais barata da minha vida, porém zero conforto, e muito cansativa, mas isso era esperado. Mas foi segura, não tivemos problema nenhum relativo a assédio, roubo ou golpes. E foi uma boa preparação para o que viria pela frente, quando você chega em um local da pior forma, o seu nível de expectativa muda, e o que seria classificado como perrengue, vira piada. Eu não faria isso novamente, porque né, eu já fiz e ainda não juntei tantos pecados assim para pagar. Se você deve fazer? Se você é mulher e está viajando sozinha, jamais. Caso esteja com amigos, em um grupo, é uma opção, caso estejam numa viagem com tempo para perder nessa travessia. E pesquise muito, no Nepal mesmo, sobre a situação atual da fronteira, horários de abertura, possíveis conflitos, e tenha a consciência de que será uma viagem dura, mas no final com muitas histórias para contar.

Próxima parada: Varanasi!

Karina Ferraz

Karina Ferraz

Nasci no Rio de Janeiro, quis ser aeromoça, mas escolhi a arquitetura, paixão que me fez querer ver o mundo. Mundo esse que me levou até a Turquia, que resolvi chamar de casa e onde vivo há 3 anos. A arquitetura entrou de férias, surgiu a agente de viagens, que vive de organizar viagens para os outros e principalmente, para si mesma. Afinal, morar no centro do mundo faz tudo parecer mais perto.
Karina Ferraz

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