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O livro Comprometida, de Elizabeth Gilbert, é a continuação da sua obra de maior sucesso Comer, rezar e amar.

Em Comprometida a autora dá sequência ao que aconteceu após a viagem de Bali (término do livro anterior), quando ela e seu amado brasileiro assumem uma vida em comum nos EUA. Tudo vai muito bem até que Felipe tem sua entrada no país negada, pois a polícia entende que o casal vivia uma vida de “casado” e que o rapaz usava de sucessivas entradas e saídas para se manter em situação regular com a imigração norte-americana. Para resolver a situação e liberar novamente a entrada de Felipe nos EUA, a polícia fez uma única recomendação e exigência: vocês precisam se casar!

Começa aí o enredo do livro. Eles ficam fora do país por muitos meses até que seja providenciada toda a documentação exigida pela polícia norte-americana e que tais documentos sejam aprovados para que o casamento seja liberado e a entrada no país, permitida.

Para sobreviver aos indefinidos meses de espera, o casal vai para a Ásia, pois era uma região onde poderiam viver com menor quantidade de dinheiro.

Novamente, esse não é um livro de viagens – na verdade é um livro que traz bastante dados históricos e culturais sobre a instituição “casamento”, praticamente um estudo antropológico – mas no meio das páginas o leitor consegue identificar outros pontos.

A partir dos estudos que a autora apresenta, falando sobre o papel do casamento nas antigas e diversas sociedades, dá para entender um pouco a estranheza que mulheres “avulsas e independentes” que resolvem cair no mundo causam a alguns. São séculos de uma tradição que muitas vezes é custosa de ser rompida, e por isso causa estranheza e às vezes, um certo pré-conceito de quem opta por ir contra a maré.

Acho também muito interessante a forma com que Elizabeth Gilbert consegue “virar íntima” de pessoas quase desconhecidas, como o caso da família vietnamita da tribo hmong. Claro que esse tipo de situação difere muito das viagens que eu, Daniela, costumo fazer. Tenho um período curto para visitar os lugares, e nesses locais acabo sempre me comportando como turista, pois não há tempo hábil para se sentir parte do local. Mas admiro quem tem a disponibilidade de tempo para permanecer e interagir com tantas histórias e vivências. Acho muito enriquecedor.

O que mais identifiquei são as situações de viajar em companhia de amigos / conhecidos. Costumamos dizer que viagem é o tipo de situação que coloca à prova muitas amizades e ditas afinidades de relacionamento, e como a autora coloca “Toda intimidade traz consigo, escondidos sob a superfície adorável do início, os mecanismos sempre engatilhados da catástrofe total” (p. 20). Isso se aplica não somente nas viagens com amigos, mas na convivência sob o mesmo teto com seu companheiro que até então era o melhor namorado do universo. Quem nunca viveu isso que atire a primeira pedra, né?

Estar 24 horas em companhia de outra pessoa, sob situações que não são as do seu cotidiano, e que por isso já exigem um “desgaste” de adaptação (por melhor e mais confortável que seja sua viagem, sempre há um clima, um idioma, uma culinária, uma cama, uma cultura a se adaptar) é muito mais difícil quando só um lado tende a ceder e flexibilizar.

Em certo ponto, a autora escreve refletindo sobre seu período prolongado de viagem ao lado de seu amado, pois algumas situações começam a se mostrar estressantes: “Felipe e eu, na verdade, viajamos de maneira muito diferente. No caso de Felipe, a realidade, como eu vinha percebendo aos poucos, é que ao mesmo tempo, ele é o melhor e o pior viajante que já conheci. Ele detesta banheiros esquisitos, restaurantes sujos, trens desconfortáveis, camas estranhas – tudo o que praticamente define o ato de viajar. Se puder escolher, vai sempre preferir uma vida de rotina, familiaridade e práticas cotidianas tediosas e tranquilizadoras. Tudo isso pode fazer alguém supor que ele não tem o mínimo talento de viajante. Mas quem pensa assim se engana, pois eis aqui o dom de viajante de Felipe, o seu superpoder, a arma secreta que o torna inigualável: ele consegue criar para si um habitat conhecido de práticas cotidianas tediosas e tranquilizadoras em qualquer lugar, basta deixá-lo ficar num lugar só. Ele consegue assimilar absolutamente qualquer ponto do planeta em cerca de três dias, e depois, é capaz de ficar parado nesse lugar sem se queixar pela década seguinte” (p. 184).

Para mim o que mais encanta é o novo, é tudo aquilo que exige a adaptação, e por isso mesmo, às vezes desgaste, mesmo quando estou só com minha própria companhia. Recentemente ouvi de uma amiga uma frase que dizia que certa pessoa não viajava, porque ela levava consigo toda sua rotina e hábitos para onde quer que fosse.

Existe uma forma certa ou errada de se comportar? Ou existe somente a minha forma e a forma de cada um? Acredito que a segunda opção é a resposta adequada, pois cada um vive sua experiência de forma particular, e foi nessa viagem que viajei no livro Comprometida.

Daniela Nogueira

Daniela Nogueira

Sou educadora da rede pública, mas é nas viagens que me realizo. Esse bichinho sempre esteve comigo, mas precisou que um ex namorado o alimentasse e foi com ele que aprendi a “conhecer o mundo”. Como todo pé na bunda te empurra pra frente, foi nessa situação que comecei a viajar sozinha, e nunca mais parei! Hoje já pisei nos cinco continentes e fiz roteiros que antigamente eram impensáveis. Os planos para o futuro? Dominar o mundo!
Daniela Nogueira

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Livro: Comprometida

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