Índia, aquela que assusta, que encanta, que intimida…

Viagem para Índia
Varanasi.

O que esperar do segundo país mais populoso do mundo, que venera a vaca, apesar de maltratá-las também, e tem uma cultura tão própria e tão diferente do que conhecemos?

Quando eu estava me preparando para essa viagem, li um texto que dizia: “Nada te prepara para a Índia”…pois bem, quem sou eu para argumentar com a experiência, não é? Hoje eu garanto que não existe frase mais correta a respeito.

Abaixo as minhas impressões e as principais perguntas que respondi depois que voltei:

A Índia é suja?

Sim. Depende. Resumidamente, posso dizer que varia do imundo ao pouco sujo. Uma cidade limpa, baseado no meu padrão de limpeza, ocidental, eu não vi, mas dizem que existe.

Na escala Karina de sujeira, Varanasi ganhou o troféu de lugar mais sujo do meu mundo. İmagine não apenas uma cidade antiga, é uma das cidades mais antigas continuamente habitadas do mundo, repleta de becos, rituais, sagrada, considerada auspiciosa para morrer, onde os peregrinos vêm para lavar uma vida de pecados nas águas sagradas ou para cremar seus entes. Os animais vivem livremente e são alimentados pelos moradores com as sobras dos seus alimentos. Não tem como ser limpa.

É suja, mas é mágica. Prepare o nariz, o estômago e vá.

Viagem para Índia
Guetos de Varanasi.

Sub pergunta: O Ganges é sujo?

Considerando que o trecho do rio em questão está em Varanasi, com base no que relatei antes, dá até para dizer que ele é limpo. Acho que a minha expectativa era de ver algo similar ao Tietê nos seus piores dias, com o plus dos corpos boiando. Mas não, foi uma grata surpresa, sem corpos ou partes, e eu até me aventurei num barquinho por suas águas, mas segurando firme nas bordas porque um banho ali não estava nos planos.

Viagem para Índia
O Ganges.

De volta ao tópico e a minha escala de sujeira, na outra ponta ficou Udaipur, a minha experiência mais limpa por aquelas bandas. A área ao redor do lago Pichola concentra os principais palácios e atrações da cidade, além de charmosos cafés e restaurantes. Uma caminhada ao redor do lago é um excelente programa para o dia, e fique para o pôr do sol, um dos mais lindos que tive a chance de presenciar.

E a tal da vaca sagrada?

Estão por toda parte, as vacas e os seus dejetos sagrados. Se você pisar neles, é considerado sorte, e suas chances são grandes, olhar onde pisa é uma necessidade. As vacas vivem livre, circulam e estacionam onde querem, atravessam rodovias, entram nas casas. E isso não é considerado benção, se elas entram, eles expulsam e batem se for preciso, se elas entram na avenida, são empurradas para a calçada. Alimentam-se de lixo, disputando a pouca comida disponível com outros animais. Uma maneira bem peculiar de ser sagrada.

 

Viagem para Índia

Como foi a alimentação na Índia?

Essa sempre foi uma questão complicada pra mim, por razões pessoais. Eu odeio pimentas, condimentos e qualquer outra coisa ardida, e não dispenso carne. O total oposto da comida indiana. Mas eu sobrevivi, e é possível sim. A minha saída foi procurar restaurantes com um perfil internacional, com turistas dentro, vivos, e tentar. A primeira semana eu passei sem provar nada indiano, feliz entre pratos asiáticos, purê de batatas e outras iguarias internacionais. A experiência indiana errada? Pode ser, mas foi o que me fez feliz.

Com o tempo me senti encorajada a tentar, desde que o prato atendesse aos meus requisitos sem pimenta. Para quem sofre dos mesmos problemas que eu, o palak paneer, um prato feito de espinafre e queijo existe, é zero ardido, e é uma delícia. E nunca acredite quando eles dizem que não tem pimenta, a culinária deles tem uns 16 diferentes tipos, uma delas vai estar lá.  A carne, essa eu tive que passar sem, e inclua ai frango e peixes. Nos restaurantes internacionais eles até estão no cardápio, mas eu achei prudente não arriscar. Depois de ver como os animais são alimentados nas ruas, acho que voce também não vai querer.

O fator alimentação é crucial também no quesito saúde. Com tanta sujeira no país, o cuidado com a alimentação deve ser redobrado. Os relatos que li sobre infecção intestinal e bactérias eram bem assustadores. Eu passei longe de qualquer coisa crua, laticínios e procurava locais cheios porque tendem a ter comida fresca.  Outra dica que me deram e que foi delícia seguir, foi beber Coca-cola após as refeições, baseado em propriedades antibactericidas que dizem que a bebida tem. Se é verdade, não sei, mas não custa tentar.

A água merece atenção especial, eu checava os lacres da garrafa antes de comprar e dava preferência as de lacre duplo.  Em alguns locais usei a água mineral também para a higiene bucal, não dava para confiar na água da torneira.

Antes de viajar, eu inseri na minha alimentação diária um sache de probiótico e foi ótimo, e enchi a bolsa de álcool gel e lenços umedecidos. Com esses cuidados eu consegui voltar inteira de lá, sem ter tido nenhum problema de saúde.

E os indianos? E o assédio?

Depois de um mês no país, acho que uma palavra os define: curiosos. Eu nunca me senti tão observada na vida! A cada passo tinha um ou alguns indianos acompanhando todos os meus movimentos. E não pensem que eles observam de forma discreta, eles encaram sem inibição E gostam de fotos, eu tirei fotos com umas trocentas pessoas, confesso que gostaria de saber o que eles fazem com essas fotos.

O assédio é nível intenso, eles param você o tempo todo, para conversar, perguntar, oferecer serviços, vender, pedir dinheiro, é uma loucura. Quanto maior a cidade ou a fama do ponto visitado, mais assediado você será. Já as cidades menores são uma tranquilidade, os melhores locais para interagir com a população.

Quanto ao assédio feminino, eu não estava viajando sozinha, ter uma companhia masculina evitou muito abordagens inconvenientes. Junto com a escolha de roupas discretas, não tive problemas sérios, apenas alguns engraçadinhos que adoram uma pergunta “íntima”, como um guia que quis saber como era a minha vida sexual morando num país muçulmano…

Tenham em mente antes de viajar que a sociedade é machista, a quantidade de homens na rua é infinitamente maior que de mulheres, o país é mega populoso, ou seja, são muitos homens e você sendo diferente deles vai chamar a atenção. Conversei com muitas mulheres viajando por lá, e algumas relataram situações bem desconfortáveis, desde perguntas indiscretas a tentativas de toque desnecessárias, principalmente durante viagens de trem.

E os trens? São mesmo como aquelas fotos que circulam na internet?

 Os trens na Índia merecem um post separado (leia aqui), mas posso dizer que é muito mais que um transporte de um ponto a outro, é uma experiência antropológica. Dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo? Essa lei da física definitivamente não foi testada lá. Compre um bilhete “general seating” e mude o seu conceito de perrengue para sempre.
Karina Ferraz

Karina Ferraz

Nasci no Rio de Janeiro, quis ser aeromoça, mas escolhi a arquitetura, paixão que me fez querer ver o mundo. Mundo esse que me levou até a Turquia, que resolvi chamar de casa e onde vivo há 3 anos. A arquitetura entrou de férias, surgiu a agente de viagens, que vive de organizar viagens para os outros e principalmente, para si mesma. Afinal, morar no centro do mundo faz tudo parecer mais perto.
Karina Ferraz

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