“Se nossas vidas são dominadas pela busca da felicidade, talvez poucas atividades revelem tanto a respeito da dinâmica desse anseio – com toda sua empolgação e seus paradoxos quanto o ato de viajar” – Alain de Botton

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Alain de Botton é um escritor que ficou famoso por popularizar a filosofia em situações do cotidiano. E é dessa forma que ele faz em sua obra “A arte de viajar”.

“A Arte de viajar” é um livro que traz uma abordagem diferente dessa prática que tanto nos encanta. O autor traz sua experiência como viajante na comparação à experiência de outros autores antigos.  Em cada um dos cinco capítulos, que ilustram “partes” de uma viagem (partida, motivações, paisagem, arte e retorno), o texto conversa com os relatos e experiências desses outros autores, elucidando diferentes situações a partir do seu olhar na “prática”. Por diversas vezes ao longo da leitura me peguei pensando “nossa, como nunca tinha pensado nisso!”

“Ainda que de maneira desarticulada, ele expressa um entendimento de como a vida poderia ser fora das limitações do trabalho e da luta pela sobrevivência” (sobre o ato de viajar)

E aqui me pergunto: porque não podemos trazer para nosso cotidiano algumas das ações e práticas que temos quando estamos viajando? O autor coloca até que o ato de viajar pode contribuir de forma modesta para a “eudaimonia”, que é como os gregos chamavam o desabrochar humano. Outro dia escrevi um post sobre o meu desabrochar humano, sobre coisas que as viagens me ensinaram. Já parou para pensar sobre isso? Ou você simplesmente viaja, sai, volta e continua a ser o mesmo de sempre?

Ainda nessa parte inicial do livro, o autor vai falar das decepções que temos ao chegar em alguns lugares, porque idealizamos uma realidade particular que não corresponde à real (quem nunca fez isso na vida que atire a primeira pedra, não só em relação à lugares quanto à pessoas também!).

Em outro trecho inicial, num tom até um pouco ranzinza, ele cita a irritação em uma viagem em particular e comenta “inadvertidamente, eu me levara comigo para a ilha”. Afinal, a viagem não te faz ser outra pessoa, não é mesmo? Você não poderá encontrar em cenário algum do mundo algo que não tem dentro de você mesmo. Nada adianta buscar a dita felicidade em mil destinos se você não a tem dentro de si. A mudança de cenário pode camuflar, mas não é capaz de esconder por completo sua verdade.

O autor cita Baudelaire nessa busca incessante da tal felicidade:

“Sempre me parece que estarei bem onde não estou, e essa questão sobre o deslocamento ocupa permanentemente a minha alma”.

No decorrer do livro Alain de Botton ainda falará do encantamento que viagens podem nos proporcionar com a contemplação de diferentes e belas paisagens naturais, tomando-as como verdadeiras obras de Deus:

“Não é coincidência que o interesse ocidental por paisagens sublimes tenha se desenvolvido precisamente no momento em que as crenças tradicionais em Deus se esvaneciam. É como se essas paisagens permitissem aos viajantes vivenciar sentimentos transcendentais que já não sentiam nas cidades e nos campos cultivados. As paisagens lhes ofereciam um vínculo emocional a uma força maior ao mesmo tempo que os libertavam da necessidade de abraçar teses mais específicas e agora menos plausíveis dos textos bíblicos e das religiões institucionalizadas”.

E como verdadeiras obras de Deus, ao nos colocarmos perante maravilhas, podemos nos dar conta de nossa insignificância. Diante de grandes paisagens, por diversas vezes, já me senti insignificante perante o Universo, e nessa insignificância, todos os meus problemas, por consequência, também ficavam diminutos. Alguém mais já se sentiu assim?

“Não se surpreenda porque as coisas não funcionaram à sua maneira: o Universo é maior que você. Não se surpreenda por não entender por que elas não funcionaram à sua maneira: pois você não pode conceber a lógica do Universo. Veja como é pequeno ao lado das montanhas. Aceite o que é maior que você e não está ao alcance do seu entendimento. O mundo pode parecer ilógico a Jó, mas não significa que seja absurdo per se. Nossas vidas são a medida de todas as coisas: considere os lugares sublimes como um lembre da insignificância e da fragilidade humanas.”

Agora me diga: alguma vez você já tinha parado para pensar que o “simples” fato de viajar pudesse gerar tanta filosofia? Ainda existem outros tantos pontos tratados pelo autor, mas esse texto que aqui escrevo não se faz com o intuito de ser um resumo da obra, e sim para despertar sua vontade de buscar o restante do livro. Espero que leia, que goste e fique cheio de tantas reflexões como eu fiquei! Boa leitura! 😉

Daniela Nogueira

Daniela Nogueira

Sou educadora da rede pública, mas é nas viagens que me realizo. Esse bichinho sempre esteve comigo, mas precisou que um ex namorado o alimentasse e foi com ele que aprendi a “conhecer o mundo”. Como todo pé na bunda te empurra pra frente, foi nessa situação que comecei a viajar sozinha, e nunca mais parei! Hoje já pisei nos cinco continentes e fiz roteiros que antigamente eram impensáveis. Os planos para o futuro? Dominar o mundo!
Daniela Nogueira

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Livro: A arte de viajar

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