“A liberdade e a simples beleza são boas demais para desperdiçar”

“Na natureza selvagem” é daqueles filmes extensos que passam longe da monotonia. Baseado na biografia de mesmo nome, conta a história do jovem Christopher McCandless, que adotou o pseudônimo de Alexander Supertramp durante sua jornada.

na natureza selvagem

Mas o “Na natureza selvagem” vai muito além de um filme de viagem (aliás, esse nem é seu foco). Ele trata sim, da maior viagem que cada um pode empreender, que é a viagem para conhecer a si mesmo, e não lugares e pessoas.

Liberdade total

Alexander Supertramp começa sua jornada com base na liberdade total, cujo lar passa a ser a estrada. Com a meta de chegar ao Alasca, o jovem passa por vários lugares, vivências e experiências.

“Não mais disposto a ser envenenado pela civilização”, ele foge, numa busca pessoal de uma revolução espiritual. Foge de sua família, larga carro, identidade, dinheiro e bens. Passa a viver um dia de cada vez, a aceitar o que encontra pelo caminho enquanto oportunidade de trabalho, relações pessoais e alimento.

Assim começa sua maior jornada, como um renascimento.

Praticando o desapego

O filme trata de um desapego “extremo”, pois o jovem abdica de tudo. Particularmente acredito que cada viagem representa um pouco de desapego, representa algo que você abdicou, algo que deixou para trás  para agregar algo novo (nem que seja o desapego do conforto!).

Cada um tem uma medida, uma métrica particular, e para mim, não é necessário largar tudo (material e imaterial) para renascer e se modificar. Para mim esse processo é um contínuo… Mas como disse, cada um tem sua própria métrica.

“Como é importante na vida, não necessariamente ser forte, mas sentir-se forte. Para se testar ao menos uma vez, para passar ao menos uma vez pela mais antiga das condições humanas, enfrentando o desafio sozinho, sem nada para ajudar, exceto as mãos e a cabeça”.

Novas pessoas

Antes do seu isolamento no “ônibus”, Alexander viveu loucuras (como a descida do rio sozinho, no caiaque) e conheceu muitas pessoas. Essas pessoas o marcaram, assim como ele as marcou. Ele ressignificou seus laços e os laços emocionais de outras pessoas com quem interagiu na jornada, e isso é muito nítido durante todo o filme.

Durante a jornada, o carinho espontâneo que brota entre essas pessoas desconhecidas, sinceramente me emociona.

Em certo momento, numa leitura, como que fazendo do autor suas palavras, Supertramp pronuncia “já vivi muita coisa e acho que agora descobri o que é preciso para ser feliz”.

E você, qual será sua medida da felicidade? Já pensou nisso?

O homem não é uma ilha

Apesar de afirmar que o “prazer não vem principalmente das relações humanas”, e que as pessoas precisam mudar a forma de ver as coisas, Supertramp, no auge do seu isolamento, muda de ideia e registra a frase que fecha o filme quando diz “a felicidade só é real quando é compartilhada”.

Ou seja, nenhum homem é uma ilha.

Finalizando…

Fica complicado escrever sobre o filme sem chegar perto do seu desfecho final, e me policiei muito, pois isso estragaria a surpresa de quem ainda não o assistiu. Então, assista! Garanto que vale a pena.

Dessa forma, finalizo com as palavras do próprio Supertramp, numa carta enviada a um dos seus amigos de jornada, o senhor Ron Franz, que aparece já na parte final do filme:

“Abril de 1992.

Gostaria de repetir o conselho que lhe dei antes: você deveria promover uma mudança radical em seu estilo de vida e fazer corajosamente coisas em que talvez nunca tenha pensado, ou que fosse hesitante demais para tentar.

Tanta gente vive em circunstâncias infelizes e, contudo, não toma a iniciativa de mudar sua situação porque está condicionada a uma vida de segurança, conformismo e conservadorismo, tudo isso parece dar paz de espírito, mas na realidade nada é mais maléfico para o espírito do homem que um futuro seguro.

A coisa mais essencial do espírito vivo de um homem é sua paixão pela aventura. A alegria da vida vem de nossos encontros com novas experiências [..]

Você está errado se acha que a alegria emana somente ou principalmente das relações humanas. Deus a distribuiu em toda a nossa volta. Está em tudo ou em qualquer coisa que possamos experimentar. Só temos de ter a coragem de dar as costas para nosso estilo de vida habitual e nos comprometer com um modo de vida não-convencional.

O que quero dizer é que você não precisa de mim ou de qualquer outra pessoa para pôr esse novo tipo de luz em sua vida. Ele está simplesmente esperando que você o pegue e tudo que tem a fazer é estender os braços. A única pessoa com quem você está lutando é com você mesmo [..]

Espero que na próxima vez que eu o encontrar você seja um homem novo, com uma grande quantidade de novas experiências na bagagem. Não hesite nem se permita dar desculpas. Simplesmente saia e faça. Simplesmente saia e faça. Você ficará muito, muito contente por ter feito.” (Christopher McCandless)

Bônus:

A atuação do jovem Emile Hirsch, que dá vida ao personagem, é excelente! Ah, e além de um filme sensacional, a trilha sonora é muuuuito boa! Vem ouvir aqui…

Curiosidade:

O ônibus mostrado no filme, onde Supertramp viveu, ainda existe no mesmo lugar, no Parque Nacional Denali, no Alasca.

O ônibus é ponto de visitação de muitos que se inspiraram na sua história e que resolveram seguir com a quebra de barreiras.

Daniela Nogueira

Daniela Nogueira

Sou educadora da rede pública, mas é nas viagens que me realizo. Esse bichinho sempre esteve comigo, mas precisou que um ex namorado o alimentasse e foi com ele que aprendi a “conhecer o mundo”. Como todo pé na bunda te empurra pra frente, foi nessa situação que comecei a viajar sozinha, e nunca mais parei! Hoje já pisei nos cinco continentes e fiz roteiros que antigamente eram impensáveis. Os planos para o futuro? Dominar o mundo!
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